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A história de João W Nery - Do escritor ao ativista

João nasceu num corpo de mulher, porque o corpo é uma invenção social no sentido de que nada na cultura pode ser pré-discursivo, tudo tem que passar pela linguagem para ter um significado. Então ninguém nasce trans, ninguém nasce homossexual, ninguém nasce nada. Nós nascemos nus. Todo o resto são montagens que vão se fazendo durante a nossa vida, são performances que vamos criando a partir das identificações que vamos tendo. E somos eternos mutantes, podemos a qualquer momento nos tornarmos outra coisa.
Ele nasceu em 1950,tem 67 anos e viveu praticamente 30 anos sem o rótulo de transexual. Também não se identificava como lésbica, porque nunca se sentiu uma mulher. Em suma, ele era um ET sem classificação. Deu a sorte de nascer numa família pequeno-burguesa de classe média e se formou, com a identidade feminina, em Psicologia. Se especializou em Sexologia e deu aula em três universidades no Rio de Janeiro.
A década de 70 foi marcada por movimentos contra-culturais. A vinda da moda unissex lhe deu um grande alívio, ele podia cortar o cabelo curto, usar calça jeans e, então, se tornou uma figura andrógena, sem hormônios, pois não se hormonizou antes da cirurgia, o que hoje ocorre.
Com 22 anos saiu de casa, foi morar com a namorada. No prédio em que viviam, ele era o marido. Era visto como homem para os desconhecidos, e, para os amigos, a família e no trabalho era aquele ET, aquela figura andrógena sempre com uma documentação feminina e um aspecto masculino. Então era uma loucura porque em blitz policial por exemplo, ele mostrava o documento e ouvia “Documento da sua irmã pra cima de mim?”. Ou seja, seus próprios documentos depunham contra si mesmo. João foi acusado de falsidade ideológica e considera essa questão documental mais importante do que a cirurgia para os transgêneros de uma maneira geral. O nome social não é respeitado
Aos 27 anos descobriu uma equipe pioneira no Rio de Janeiro, que começou a estudar sobre transexualidade e se submeteu a todos os testes. Se submeteu também a cirurgias, mas  não tem pênis, é um homem sem pau e nem por isso deixa de ser homem. E que fique bem claro: há muitos homens que perdem seus pênis por câncer, por diabetes, por necrose, por acidentes, e nem por isso deixam de ser homens, não perdem a sua identidade masculina. Podem até ficar com a auto-estima baixa, mas em momento algum eles passam a ser mulheres.
Depois da operação, ele não pode entrar na justiça pra mudar o nome, porque há 30 anos era obrigado a ficar no armário, senão era preso por ter dois CPFs, um de mulher outro de homem. E aí quando eu publicou o livro "Viagem Solitária", tudo mudou, ele se tornou um militante da causa dos direitos humanos que defende não só os LGTB, mas todas as minorias, todos que sofrem alguma forma de discriminação sobre o seu reconhecimento. Como não podia entrar na justiça depois de assumir a identidade masculina, foi no cartório e tirou uma documentação com um nome masculino, por conta própria, como se nunca tivesse se registrado. E aí, como homem, eu perdeu todo o seu currículo escolar anterior. Por isso teve que trabalhar de pedreiro, pintor, chofer de táxi, vendedor… passou 30 anos trabalhando em subempregos.
Hoje João trabalha no facebook, se tornou um psicólogo virtual. Ele atende as pessoas que o procuram, tem uma lista de médicos, psicólogos e advogados de todo o Brasil que atendem pessoas trans e ajuda os transexuais, porque a maior dor deles não é nem o próprio corpo, mas a transfobia que eles sofrem e que começa dentro de casa. Então eles apresentam depressão, síndrome do pânico, não querem sair nem de dentro do quarto. E tem outro problema: a sociedade não dá emprego para os trans! 

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